Entrevista a Jorge Moreira

censura

São 16:45. Está o restaurante Império mais calmo. Depois de mais uma hora de almoço atordoadíssima , os empregados estão ainda a levantar as mesas, como habitual. Jorge Moreira, de 65 anos, costuma ir lá todos os dias e por isso já é conhecido por toda a gente. Sempre simpático, cumprimenta toda a gente e conversa como habitual, sobre o futebol, com o gerente, enquanto que uma antiga conhecida lhe pergunta constantemente “que notícias lhe traz hoje”.
Ele diz-lhe sempre: “trago-lhe a verdade”
Quando é que começou a exercer?
Eu comecei a exercer a profissão de jornalista logo na rádio profissional, porque antes não havia uma carteira profissional de jornalista, isso só apareceu depois de 74. Nós na rádio fazíamos tudo, fazíamos programas, fazíamos informação, ou seja, até o que chamam hoje de animadores de rádio, éramos nós que fazíamos. Hoje trabalho na Rádio Radar.

Qual é a sua rotina?
Por acaso sou uma pessoa que tem uma rotina muito certa, mas também já muito afetada pela idade. (riso) Eu acordo por volta das 5 da manhã, preparo as minhas coisas muito rapidamente e vou para a rádio, onde às seis e meia da manhã passo as primeiras notícias. Saio às 13h e vou logo para casa, no autocarro…sim, com 65 anos nunca tive carta. Em casa, almoço e durmo a sesta ate às 6 da tarde. Depois de jantar fico a trabalhar até por volta da 1 da manhã.
Qual era exatamente o seu cargo na rádio?
Eu fazia tudo. Quando comecei em Março de 1968, tinha 17 anos, comecei a fazer tudo e portanto aí aprendi muito. Antes tinha estado um ano e meio na rádio universidade, que era na altura a única escola que havia para a gente, onde ganhei algum conhecimento. Eu sou do tempo de alguns nomes históricos da rádio como Carlos Cruz, Adelino Gomes, João David Nunes e portanto são pessoas com quem eu aprendi naquela altura. (…)

Porque é que decidiu seguir esta área?
Eu segui porque, sempre tive o bichinho da rádio. Eu comecei a ouvir rádio muito novo, tinha um primo que era profissional de rádio…mas não foi por aí que eu optei. Eu tinha a mania que tinha boa voz. Mais tarde, comecei a ler jornais alto, a gravar para mim próprio e depois foi por aí…(…)
E já tinha noção da opressão e falta de liberdade?
No princípio não. Eu era um bocado inconsciente política e socialmente, mas fui aprendendo com colegas mais velhos e que me deram a noção do meio onde eu estava. Portanto eu fui adquirindo essa consciência política ao longo do tempo e dos anos. (…)
Qual a principal diferença entre o antes e o depois da ditadura?
É uma diferença abismal! É a liberdade de criar e dizer a verdade. Sobretudo dizer a verdade, porque antes era impensável dizer a verdade. A gente dizia a verdade que eles queriam, que a censura queria. Por isso também quando entrei neste meio não tinha grande noção do que se passava. Eu quando via os jornais era naquilo que acreditava, se não havia acesso a mais nada… Estávamos fechados neste país. Depois do 25 de Abril passámos a seguir o código deontológico do jornalista. É basicamente a nossa bíblia. É por aí que nos devemos seguir, devemos sempre dizer a verdade e ser sobretudo independentes. Não ser subservientes a partidos nem nada disso, ser imparcial!

Os jornalistas sentiram-se livres depois do 25 de Abril?
Bem, isso toda a gente se sentiu livre, eu quero dizer é que toda essa pressão que havia sobre nós, em vez de nos enfraquecer, não, aumentou, fortaleceu-nos e fez com que nós depois, em 1974, conseguíssemos dar azo àquilo que queríamos fazer antes e que não podíamos fazer.
O que era a censura?
A censura era uma repressão sobre as nossas palavras, as palavras que a gente escrevia. O que era condenável para todos os meios de comunicação. Os temas não podiam ser feitos por nós e a realidade do país não podia ser criticada, e isso cortava-nos a criatividade e a verdade dos factos.

Na rádio como funcionava a censura?
Na rádio nós tínhamos a nossa grande fonte de informação que era a ANI, atual LUSA, que estava, tal como todas as fontes dos meios de comunicação, ligada ao regime. As notícias vinham do país, de todo o mundo, mas vinham à maneira deles. De vez em quando os telegramas escapavam a ANI, mas nunca escapavam à censura prévia, que dizia por exemplo, corte o parágrafo tal, as linhas tais e a notícia da página tal. Era o chamado lápis azul. (…)

Qual era o assunto mais falado e modificado na rádio?
Naquele tempo havia a guerra colonial, que era digamos um amor muito querido do governo da altura. A gente não podia falar mal da guerra colonial. Falava-se muito e de vários aspetos, das baixas, da moral das tropas, etc. Eles para aí 48 horas antes mandavam-nos aquilo que poderíamos dizer e o que não podíamos. Por exemplo, na guerra colonial quando havia um ataque daqueles que eles chamavam terroristas e haviam baixas dos soldados portugueses, eles não diziam que era um ataque, era um acidente nos carros militares ou morreram num acidente….a gente não podia era dizer ou demonstrar que éramos inferiores. Ou seja, isso é cortar a criatividade e não só, é cortar a verdade dos factos.

Tem alguma experiência que o tenha marcado?
Pessoal nunca tive, eu nunca tive nenhum problema. Tive duas experiências marcantes. A primeira foram dois colegas meus que chegaram a ser chamados por desobedecerem às normas de censura e que foram afastados. Mas o mais marcante foi mesmo o grande dia. O 25 de Abril de 1974. Foi um virar de página completamente na minha profissão. E não só!

Tira algo de positivo da ditadura para o jornalismo?
A ditadura também nos fez crescer não só profissional e politicamente, como também socialmente. Agora, perante todas aquelas pressões, todos aqueles condicionalismos nós chegámos a 1974, mais fortes de consciência. O tiro saiu pela culatra às pessoas que nos censuravam. Chegámos a 1974 com mais consciência de classe, com mais conhecimento do que era a profissão. E prontos, a partir daí a gente abriu logo os horizontes e quando chegou a liberdade demos azo à nossa criatividade e liberdade de expressão. (…)

E quanto ao jornalismo da atualidade? É livre? Existe algum tipo de censura?
Isso é uma pergunta muito complicada (riso) mas isso é bom. As perguntas complicadas têm sempre respostas complicadas. Eu acho que não há censura. Há sim uma autocensura, o próprio jornalista é que avalia o que deve dizer ou não. Mas eu penso que de uma maneira geral nós temos uma imprensa livre. Agora, quando há algo mais comprometedor ou que não devia ser publicado, essa pessoa é que tem problemas, mas o jornalista sabe o seu código deontológico e sabe os limites onde tem que atuar.

Por fim, considera-se uma pessoa livre? Profissional e pessoalmente?
Sim, profissionalmente considero-me uma pessoa livre dentro dos parâmetros e direitos da minha profissão. Pessoalmente, é claro que uma pessoa tem sempre as suas responsabilidades e aqueles “condicionalismos” de cada um. Mas sim, considero-me uma pessoa livre, muito graças ao regime em que vivemos. A democracia abre-nos horizontes. A gente não pode é pisar a linha vermelha mas para isso, cada um tem a sua consciência. (…)

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Rafael Resende (10ºJ – D.Fernando II)

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