Filosofia na sala de aula: importância e desafios

 

“Pai é pai! Melhor amigo é amigo!”

 

(aluno do 2º Ano)

 

Sempre achei aborrecidos esses pais empenhados em ser ‘o melhor amigo de seus filhos’.”

 

(Fernando Savater – Ética para meu filho)

 

 

 

 

A primeira citação é uma expressão que ocorreu numa sessão filosófica numa das aulas de Filosofia para crianças, numa turma do Agrupamento das Escolas de Colares. As crianças debatiam se deveriam contar segredos aos pais. Uma criança levantou a placa do «SIM», para justificar a sua opinião, disse: “Devemos contar os nossos segredos aos pais porque eles são os nossos melhores amigos”. Foi então que o que fez a opção de levantar aplaca «NÃO», disse: “Pai é pai! Melhor amigo é amigo! E se vamos dizer aos nossos pais, já deixa de ser segredo”. Isto é Filosofia!

A segunda citação, é de um catedrático de Filosofia da Universidade Complutense de Madrid, Fernando Savater.

 

Como vimos, há uma relevante aproximação entre o que diz um miúdo, no 2º ano do 1º ciclo, e um catedrático de Filosofia. Esta constatação não é novidade para quem convive com crianças, e experimenta ouvi-las. É nato na criança o questionamento, a busca por «razões» que sejam plausíveis e compreensíveis à sua capacidade cognitiva. Nas aulas de filosofia as crianças têm espaço para dizer: “que não é feliz porque os seus pais brigam e batem sempre um no outro”; “tenho razões para dizer que o Pai Natal não existe, pois vi meu pai, meu tio e  minha avó comprando as prendas no shopping”; “não são todos os pais os melhores amigos dos filhos, pois, se fossem a mãe de (fulano) não o teria deixado sozinho com o pai”; “não quero ser gente grande porque fico grávida e dói a barriga” e “porque tem que trabalhar de 2ª a 6ª e não têm tempo de comprar as coisas com as crianças e nem de dormir direito”.

 

As aulas de Filosofia, longe de serem uma aula para preencher o tempo das crianças nas escolas, após aulas regulares, é o espaço de tempo em que os alunos, desde o 1º ano, começam a ter oportunidade de emitir opinião, argumentar as razões de suas escolhas, e principalmente, iniciar o processo de escuta atenta e respeitosa do que é compartilhado pelo seu colega. Os dilemas e «problemas» tão sérios para os miúdos, são acolhidos nas sessões Filosóficas com respeito e seriedade. Acusação, como por exemplo: “Tu concordaste com oque ele disse porque és amigo dele!”, é muito comum no começo. A professora precisa lembrar as crianças de que nas sessões Filosóficas, o que está em discussão são as ideias, não as pessoas.

 

As crianças envolvem-se e levam a sério as experiências vivenciadas nas aulas, começam por cumprir as regras de convivência, elaboradas pelas próprias crianças e aprovadas por todos, nas primeiras aulas de Filosofia. Sem dúvida, os problemas, conflitos ou aflições expostos ao grupo deixam as crianças mais confiantes. Aos poucos demonstram-se mais seguros e expressam-se sem medo.

 

Os adultos, por diversas razões, nem sempre param para ouvir, o que uma criança tem para dizer. Pior, muitas vezes desconsidera-se o que a criança apresenta como um dilema sério, pois não consegue colocar-se no lugar dela. Em muitos casos o dilema infantil pode ser considerado mais grave e mais complexo do que alguns dilemas vividos por adultos, levando em conta sua idade, consequentemente sua experiência de vida.

 

A Comunidade de Investigação, nome dado por Lipman, idealizador do programa “Filosofia para crianças”, é o espaço destinado a discussões significativas.

 

A Filosofia, segundo este autor, “tenta esclarecer, iluminar assuntos controversos e desordenados que por serem tão genéricos, nenhuma disciplina científica está equipada para lidar com eles. Como exemplo poderíamos citar conceitos como verdade, justiça, beleza, individualidade e virtude. Seu principal objectivo é «cultivar a excelência no pensar».”

 

A escola, como instituição que prima pelo desenvolvimento global das crianças, considera que a Filosofia tem sua relevância nas escolas do Primeiro Ciclo, e, segundo alguns professores é uma «mais-valia» para o currículo, um paradigma de educação, que auxilia na estruturação do pensamento uma vez que possibilita às crianças oportunidade para desenvolver e aprimorar a capacidade de argumentação. O acto de argumentar está presente nas variadas situações, em que o aluno tem que explicar suas conclusões com dados suficientes para convencer outas pessoas que sua opinião é coerente e lógica.

 

Alguns pontos de vista não são levadas a cabo porque a própria criança, ao explicitar suas razões, esbarra em dados não favoráveis ao que disse e muda de opinião ou pede um tempo para pensar melhor. Algumas concluem: “Enganei-me!”.

 

Para Lipman, as discussões e os debates são utilizados para esclarecer conceitos, ampliar a capacidade de argumentação oral e as actividades escritas e plásticas servem para reforçar as habilidades. Em ambas as situações as habilidades cognitivas estão presentes.

 

As discussões são disciplinadas pela lógica e baseadas na razão. O professor é o mediador e sua posição é sempre imparcial. Este estimula as crianças a aproveitarem a oportunidade para discutir no sentido de realizar uma investigação cognitiva cooperativa.

 

Crianças que desde cedo vivenciam experiências como esta, têm tendência a não concordarem “irreflectidamente com as afirmações comuns dos factos”, sem dúvida, elas desejarão saber em quais circunstânciasessas afirmações são realmente verdadeiras e em quais não o são.

 

O maior desafio para os professores que actuam com esta disciplina, na modalidade de Actividade de Enriquecimento Curricular, são as crianças maiores, pois nem sempre apresentam desejo de aceitar os desafios cognitivos, preferindo “os caminhos mais curtos”, fugindo sempre das explicações dos “porquês” e das justificativas.

 

As sessões filosóficas vivenciadas pelos professores são sempre muito mais difíceis com os alunos do 4º ano, porque as crianças nem sempre sabem lidar com a oportunidade que as aulas de Filosofia favorecem. O espaço garantido para ter voz e vez para quem ainda não se habituou a usar a liberdade para expressar suas argumentações, nem sempre é optimizado pelos alunos. Eles ainda não perceberam que falar, ouvir o que outro colega diz pode ampliar seu reportório e estimular seu pensamento noutra direcção. Estes são alguns dos desafios que os professores de Filosofia precisam gerir a cada dia, nas salas de aulas.

 

 

 

Por    Kátia Silene Fernandes de Souza

 

Um comentário para “Filosofia na sala de aula: importância e desafios”

  1. Quem semeia hoje colhe em dobro mais tarde! Assim nos dêem a estabilidade para desenvolver o nosso projecto educativo.

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