Ondjaki

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         “O escritor tem alguns poderes, sim, encantatórios. As crianças também. Mas todo o artista tem algum poder de magia e, no fundo, todo o ser humano pode se apresentar como mágico. Infelizmente, esquecemo-nos disso com demasiada frequência.”

        “ […]quando somos crianças o mundo fica bonito de repente […]. Há uma capacidade no olhar infantil em ver muitas vezes o mundo como um lugar bonito. E ao longo do tempo e com a idade acho que nos vamos afastando dessa capacidade. Guimarães Rosa tinha uma frase muito bonita: “Quando nada acontece no mundo há um milagre que não estamos vendo.”

Ndalu de Almeida, conhecido como Ondjaki (palavra em umbundu que significa “aquele que enfrenta desafios”), nasceu em Luanda e aí estudou, licenciando-se em Sociologia, em Lisboa, em 2007.

“Guardo muito boas recordações de Lisboa. É uma cidade onde passei parte da minha juventude, onde me formei e me deformei, profissionalmente, e onde aprendi muito, mas muito mesmo, sobre o convívio com as outras culturas de língua portuguesa. O que quero dizer com isto é que aprendi, sobretudo em Portugal, a distinguir a língua da cultura, embora muitos de nós falemos português. Em Lisboa conheci os grandes amigos cabo-verdianos, moçambicanos, guineenses e portugueses que ainda hoje me acompanham, na vida e nas artes. Aprendi a ser mais tolerante com as gramáticas, os sotaques e os comportamentos. E sou mais feliz com essa tolerância. Vejo o mundo mais cultural e respeito mais as diferenças, sem andar freneticamente a confundir a língua portuguesa com as culturas de tanta gente que fala português.”.

Fez o doutoramento em Estudos Africanos, em Itália, em 2010.

Durante a sua infância, começou por utilizar as sebentas da escola para elaborar os seus primeiros textos, aventurando-se no mundo da leitura, primeiro com “asterixes”, depois com nomes ímpares da literatura como Sartre, García Márquez e Graciliano Ramos.

[…] a minha mãe era professora. Isso teve muita influência, acho eu, na minha relação com a língua portuguesa, e com o acto de ler, talvez. Com a escrita, não sei dizer. Não acho que exista um modo de se saber como é que alguém chega à escrita (de livros), embora muitos escritores estejam convencidos que sim, que sabem como foi… A minha mãe e também o meu pai, sempre tiveram um zelo muito grande com a nossa educação, com a escola, os deveres de casa, estudávamos durante as férias grandes, etc. A escola, a academia, sempre foi uma prioridade demasiado séria em toda a minha família. A escrita chega porque tinha de chegar. Assim como um dia poderá ir-se embora […].

A sua trajetória artística passa não só pela escrita, mas também pelo teatro (em Lisboa, fez teatro amador, obtendo posteriormente uma especialização profissional), pela pintura (com mostras individuais de artes plásticas em Angola e no Brasil) e pelo cinema (autor de roteiros cinematográficos, em 2006,  codirigiu  ao lado do realizador angolano Kiluanje Liberdade, o documentário sobre a sua cidade natal, “Oxalá cresçam pitangas – histórias da Luanda”). Questionado sobre a sua presença em  diferentes tipos de arte, o escritor afirma gostar “de estar com os poros abertos e sofrer pressões de todas as artes, e de vários mundos, individuais e coletivos.”

Entre os seus livros mais conhecidos estão o romance “Bom Dia, Camaradas”, de 2001; a novela “O Assobiador”, de 2002; o livro de poesia “Há Prendisajens com o Xão”, de 2002; o infantil “Ynari, A Menina das Cinco Tranças”, de 2004; as estórias “Os da minha rua”, 2007; o volume poético “Materiais para confecção de um espanador de tristezas”, de 2009.

Algumas das suas obras constam do Plano Nacional de Leitura.

São vários os livros traduzidos em França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha e China, entre outros países.

Integra a União dos Escritores Angolanos e a Associação Protectora do Anonimato dos Gambuzinos.

A viver desde 2007 no Rio de Janeiro, viaja constantemente pelo mundo.

 

Prémios

– Menção Honrosa no prémio António Jacinto, “Actu Sanguíneu”, Angola, 2000;

– Prémio Sagrada Esperança, “E se amanhã o medo”, Angola, 2004;

– Prémio António Paulouro,  “E se amanhã o medo”, Portugal, 2005;

– Finalista do prémio Portugal TELECOM, “Bom dia Camaradas”,” Brasil, 2007;

– Prémio Camilo Castelo Branco, APE, “Os da minha rua”, Portugal, 2007;

– Finalista do prémio Portugal TELECOM, “Os da minha rua”, Brasil, 2008;

– Grinzane for Africa Prize – Young Writer, Etiópia/Itália/2008;

– Prémio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), “Literatura em Língua Portuguesa”, “AvóDezanove e o segredo do soviético”, Brasil 2010;

 – Prémio JABUTI, categoria ‘juvenil’,  “AvóDezanove e o segredo do soviético”, Brasil, 2010;

– Finalista do Prémio Literário de São Paulo, “AvóDezanove e o segredo do soviético”, Brasil, 2010,

– Finalista do prémio Portugal TELECOM , “AvóDezanove e o segredo do soviético”, Brasil, 2010;

– Prémio Caxinde do Conto Infantil, “Ombela, a estória das chuvas”, Angola, 2011;

– Prémio Bissaya Barreto, “A bicicleta que tinha bigodes”, Portugal, 2012;

– Prémio FNLIJ, “Literatura em Língua Portuguesa”, “A bicicleta que tinha bigodes”, Brasil, 2013;

– Prémio José Saramago, “Os transparentes”, Portugal, 2013;

– Prémio FNLIJ, “Literatura em Língua Portuguesa”, “Uma escuridão bonita”, Brasil, 2014.

 

Consulte aqui a bibliografia.

 

Sem trémulos barulhares, a chuva

convidei uma chuva silenciosa

a fazer aparição num poema.

[tive que pedir licença ao assobiador. ele acedeu].

era uma chuva quase triste,

vivia consumida de se esvair.

“chego sem fazer barulho pra ninguém

se lembrar de me evitar”.

era uma chuva quase bonita.

tinha muita tendência poética

-isto me parecia óbvio.

tinha também alguma incapacidade para entender

o desejo humano

de pisar um chão seco.

depois de o assobiador eixar aquela aldeia

calculei que ninguém mais fosse acariciar

aquela chuva.

era uma chuva carente

-isso me pareceu óbvio também.

lhe atribui este lar provisório

e logo se verá

o daqui pra frente.

isso me espanta nas coisas

que não pertencem ao foro das pessoas:

a chuva aceitou ficar.

vive actualmente

na leitura [mesmo que desatenta]

de um poema.

 

o barulhar dessa chuva

é uma espécie de pequena mentira.

 

dizem que as crianças lhe conseguem escutar.

dizem que os gambozinos lhe pressentem

e nela, por vezes,

se deixam vislumbrar.

 

dizem.

 

Leia aqui outros poemas do autor.

 

MJL

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